Plantio de mudas e estacas em linhas na implantação de uma agrofloresta

Produzindo

Implementando

Do desenho para o chão: quanta ajuda de fora a área vai receber, como abrir o terreno e plantar tudo junto, e com que ferramentas.

Qual é a sua pressa?

Quanto mais pressa, mais ajuda de fora.

Ernst Götsch costuma devolver a pergunta a quem quer saber quanto adubo usar: qual é a sua pressa? A resposta decide se entra insumo de fora no preparo da área e quanto.

Começar a colher cedo, ou chegar logo ao sistema que se quer, tem preço. Quem tem pressa pode dar à terra, no começo, o que ela ainda não tem: adubo orgânico, pó de rocha, calcário. Quem pode esperar deixa a poda, a cobertura e as adubadeiras fazerem esse trabalho, e gasta menos.

Não há resposta certa. Há a resposta da sua família, da sua água e do seu dinheiro. O que muda é a pergunta: em vez de “que adubo eu compro?”, começar por “quando eu preciso colher?”.

E a ajuda de fora, quando entra, é de partida. Em uma agrofloresta ela diminui a cada ano, à medida que o sistema se aproxima da abundância, e o que conta é o manejo: segundo Götsch, 5% do trabalho está em implantar e 95% em manejar.

  • Quando você precisa colher?

    O que a família precisa ter em mãos no primeiro ano, e o que pode esperar três, cinco ou quinze.

  • Quanto custa a ajuda de fora?

    Adubo, pó de rocha e corretivo se compram, se transportam e se espalham. É dinheiro e trabalho que saem antes da primeira colheita.

  • Quanto a área já tem?

    Chão coberto e solo com vida pedem menos ajuda do que pasto pisoteado ou terra descoberta.

  • Quanto trabalho a família tem?

    Podar e cobrir o chão é o que faz o solo melhorar sem comprar nada, e pede visitas.

Um exemplo de quase nada de fora

Götsch plantou, no sul da Bahia, 1.140 m² de terra degradada, que estava em pousio há 80 anos, com solo ácido (pH 4,9). A ajuda de fora foi pequena: o equivalente a 300 kg de pó de rocha, 260 kg de calcário e 5.360 litros de esterco por hectare. O resto veio de processos: feijão-de-porco, feijão, mandioca e árvores de rápido crescimento, podadas para cobrir o chão. Em dois anos, a área deu 28 toneladas de mandioca por hectare, e a poda tomou cerca de 30 minutos por semana.

É um experimento de Mata Atlântica, não da Caatinga: serve para mostrar a lógica, não para copiar as quantidades. No semiárido, o que falta é muitas vezes a cobertura e a matéria orgânica que guardam a água.

Diga a sua pressa em voz alta

Escreva, ao lado de cada carro-chefe, em que ano você quer colher. Depois marque o que você já tem em casa (esterco, galhos, sementes) e só então decida o que vale comprar.

Fontes: Andrade e Pasini (2014); Rebello (2018)

Preparar a área

Roçar, juntar e cobrir: nada sai da área.

O mato roçado e a lenha miúda são o primeiro adubo. O preparo é separar o que vai ser cobertura, o que vira lenha e onde vão os berços.

No experimento de Götsch, a vegetação (em sua maioria samambaia e arbustos) foi roçada à mão, e as árvores, derrubadas e recortadas. A madeira mais grossa, com mais de 6 cm de diâmetro, foi separada para lenha: 4,8 m³. Todo o resto ficou na área.

Para o semiárido, a cartilha do Centro Sabiá acrescenta o tempo: as lavouras do primeiro ano entram com as primeiras chuvas, e a poda drástica e o preparo da área acontecem no fim da seca. Veja o calendário do semiárido.

É também aqui que a pressa decide: um solo muito fraco pode receber uma ajuda de partida. No experimento, foram 30 kg de calcário na área e um pouco de esterco e pó de rocha em cada berço, não espalhados por tudo.

Agricultores podam e deixam os galhos sobre o solo no início de uma agrofloresta
Galhos podados deixados sobre o solo, no início de uma agrofloresta. Foto: john Hidalgo magalha…, CC BY-SA 3.0

Separe a lenha da cobertura

Na próxima limpeza, faça duas pilhas: os troncos grossos, que viram lenha, e o mato e a galhada fina, que ficam na área, para cobrir o chão depois do plantio.

Fontes: Andrade e Pasini (2014); Centro Sabiá (2010)

Plantar tudo junto

Um berço, várias espécies.

No primeiro dia entram todas as fases da sucessão, juntas, e a lavoura do primeiro ano abre o caminho.

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    Roçar e juntar a cobertura

    A roçagem manual, com facão, deixou uma camada de uns 20 cm de matéria orgânica sobre a terra. Ela não é jogada fora: é com ela que o chão será coberto depois.

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    Abrir os berços

    A cobertura é afastada em blocos de 40 × 40 cm, a cada 75 cm, em faixas separadas por 1,5 m. O solo descoberto é afofado.

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    Plantar tudo junto no berço

    A maniva de mandioca entra inclinada, a 45°, e perto dela vão feijões, árvores frutíferas, madeireiras e adubadeiras, em sementes ou mudas. Cada berço tem várias espécies, de ciclos e andares diferentes.

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    Cobrir e deixar o berço côncavo

    Logo depois do plantio, o berço volta a ser coberto com a matéria orgânica que tinha sido afastada, em formato de ninho. O formato côncavo ajuda a entrada da água e mantém a temperatura mais baixa.

As sementes miúdas vão misturadas num substrato de terra peneirada, esterco seco e pó de rocha, levemente umedecido, para a semente grudar nos grumos e se espalhar melhor. As grandes, como a do abacate, são plantadas uma a uma.

Entre as faixas de mandioca, uma linha estreita, de uns 10 cm, recebe estacas de margaridão e o feijão-de-porco. O feijão cobre o chão e amadurece cedo; quando acaba, a mandioca cresce por cima dele.

Para uma versão com as plantas da Caatinga, veja o arranjo em linhas, com sisal, estacas, sementes e uma leira de galhos.

Pé de milho novo em terra vermelha, com uma árvore da caatinga ao fundo
Milho novo em terra vermelha, com uma árvore da caatinga ao fundo: a lavoura do primeiro ano abre a sucessão. Foto: Joélio Jeroncio, CC BY-SA 4.0

Quantidades por berço, no experimento: 3 a 5 sementes de feijão carioquinha, 1 a 3 de feijão fradinho, 2 a 3 de feijão-de-porco, 3 de cacau, 2 de cupuaçu, entre outras. Na Caatinga, vale a lista de plantas do seu consórcio.

Faça um berço de teste

Escolha um canto da área e faça um único berço, do jeito acima, com a lavoura que você já planta, uma adubadeira e uma árvore. Observe como ele vai em comparação com o resto.

Fontes: Andrade e Pasini (2014); CEPEAS (2023)

Ferramentas

Poucas e simples: a maior parte do trabalho é a poda.

Implantar uma agrofloresta não pede máquina. No experimento da Bahia, depois do plantio nenhuma ferramenta de revolver o solo foi necessária.

Facão
Roçar a área e preparar as faixas. A ponta serve para abrir a cova do feijão-de-porco, a cada 30 cm.
Enxada
Preparar as faixas de plantio, junto com o facão.
Enxadão
Recortar a camada de matéria orgânica e abrir o lugar das estacas, como as de margaridão, inseridas inclinadas, a 20°.
Motosserra
Derrubar e recortar a vegetação arbórea, quando há. No experimento, foi uma diária de trabalho.
Peneira
Peneirar a terra do substrato em que se misturam as sementes miúdas, junto com esterco seco e pó de rocha.

Na Caatinga muito degradada, a picareta

Nelson Araújo conta que, na abertura de uma área muito degradada, é comum usar a picareta: o solo está compactado e tão duro que a enxada não entra.

O trabalho de uma pessoa, nos 1.140 m² do experimento, foi de cerca de 24 diárias: 4 de roçagem, 1 de derrubada, 14 de preparo das faixas, 4 de colheita de estacas e sementes e de plantio, e 1 de serviços diversos. Depois de plantar, o trabalho passa a ser a poda.

No semiárido, as lavouras de ciclo curto ainda pedem a enxada no começo: precisam de mais cuidado do que as árvores nativas e as frutíferas.

Afie antes de começar

Separe o facão e a enxada que você tem e afie os dois antes do dia do plantio. Ferramenta afiada poupa braço no dia mais pesado do trabalho.

Fontes: Andrade e Pasini (2014); Centro Sabiá (2010); CEPEAS (2023)